segunda-feira, 15 de novembro de 2010

"a fraqueza imitava a força"

Algum benemérito da espécie, ao jeito de um qualquer Prometeu, deixou no espólio do youtube os 5 minutos de Vale Abraão que aqui publico de seguida.



Tia Augusta, o protótipo da papa hóstias, como lhe chamará um entediado Fernando Osório alguns anos mais tarde, acaba de falecer, e é este o momento em que Oliveira decide trocar a solar Cécile Sanz de Alba pela melancólica Leonor Silveira no papel de Ema Cardeano. Não é uma mudança inocente. Tia Augusta era a única mulher do Romesal que abominava o sexo. Como se detectasse em Ema o cheiro de um mutante, tentava levá-la amiúde a tomar os votos, a rezar, a deixar os "romances de amor"... Tão diferente das criadas, adoradoras da rainha despontante daquela colmeia, elas próprias amando e desejando, sobretudo Branca, que o fazia por gostar de homens, por vício, tão simples comer um bago de uva a caminho do armazém como foder o seminarista Nelson na varanda envidraçada, para delírio dos periquitos. Mesmo Ritinha, a lavadeira muda, só se mantinha casta, como uma pitonisa, pelo fantasma de filhos mudos e imbecis que anteviu no momento em que foi cortejada. A morte da Tia Augusta entontece Ema, "a fraqueza imitava a força", e ela, insciente de ser incapaz de amar, de não ser mulher ensinada no seu papel, do desequilíbrio que causa a sua beleza, um rosto que podia justificar a vida de um homem, lança-se nos descaminhos do mundo. Na cena seguinte ao fim deste trecho vemo-la a mexer nas caixas de chapéus da mãe, figura sombria que lhe deixou como única memória o lento gotejar do leite saído do seu seio para o ouvido de Ema, uma altura em que esta chorava com otite. De seguida um corte, e é o dia do casamento com Carlos...

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