sábado, 3 de julho de 2010

Salieri



Gosto particularmente no Amadeus daquele pitoresco raccord entre os dois ou três planos nos quais Salieri agradece a deus, primeiro melifluamente, enquanto compõe aquela marchazita que Mozart recria diante dos olhos da nata musical e política vienense; o segundo, logo após essa cena, de novo perante o crucifixo, mas desta feita com um ódio imenso, o "grazie signore" sai-lhe quase ameaçador. Ameaça essa que se concretiza após a estreia da Il Seraglio, quando a figura desce da parede para uma lareira acesa.

Salieri encara a falta de talento e inspiração como uma afronta de proporção universal, como se lidasse com um deus grego ou com a vingativa potestade do antigo testamento, como se fosse um Édipo ou um Job, com a vida à mercê dos caprichos e do fastio divinos. A revolta dele é curiosa, sobretudo no clímax aqui deste vídeo. Ser o padroeiro da mediocridade, ascender entre loucos e párias a esse cinzento Olimpo, é uma Paixão, um Mistério que consigo compreender.

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