quarta-feira, 8 de junho de 2016

Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões


Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões. 
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo 
Se se recorda dos movimentos migratórios 
E das estações. 
Mas não me importo de adoecer no teu colo 
De dormir ao relento entre as tuas mãos. 

Daniel Faria

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Recomeço


O primeiro cigarro do dia é na varanda
quando faz sol: misteriosamente o terraço
do vizinho continua a concentrar a tristeza 
do bairro inteiro. Mal acordado, juntas as linhas
que te permitem perceber quem és, onde estás, 
o que terás de fazer a seguir. E a angústia 
que te abraça é a memória mais antiga 
que possuis, vem das casas de Bragança
e Moncorvo, já a conhecias antes de lhe seres
formalmente apresentado. Tu nunca quiseste 
pertencer. Só à ponta da navalha. Só no fundo
do beco, encurralado. Meu Deus, que vocação
para o desassossego. Mas será um sinal de resistência 
ou uma espécie de defeito anímico? Tanto faz, 
vamos, põe a cafeteira ao lume. E recomeça. 

Rui Pires Cabral

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Ítaca sem Gatos


Nenhum gato reconheceu Ulisses no
seu regresso a casa. Nem consta 
que algum brincasse com os novelos
que a mulher dobava e desdobava 
durante a longa ausência para
iludir os pretendentes. Por isso 
me soa estranha a Odisseia e o 
regresso a Ítaca sem o festivo içar
da cauda dum gato. 

Inês Lourenço, A Disfunção Lírica 

terça-feira, 29 de março de 2016

Tragam-me um homem que me levante com os olhos


Tragam-me um homem que me levante com
os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia
com a graça de um balão acabado de encher
tragam-me um homem que venha em baldes,
solto e líquido para se misturar em mim
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
leve, leve, um principiante de pássaro 
tragam-me um homem que me ame em círculos
que me ame em medos, que me ame em risos
que me ame em autocarros de roda no precipício
e me devolva as olheiras em gratidão de 
estarmos vivos
um homem homem, um homem criança
um homem mulher
um homem florido de noites nos cabelos
um homem aquático em lume e inteiro
um homem casa, um homem inverno
um homem com boca de crepúsculo inclinado
de coração prefácio à espera de ser escrito
tragam-me um homem que me queira em mim
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
um homem mundo onde me possa perder
e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
atirando-me à ilusão de sermos duas 
novíssimas nuvens em pé.


Cláudia R. Sampaio

quinta-feira, 24 de março de 2016

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya



Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. 

É possível, porque tudo é possível, que ele seja 
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, 
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém 
de nada haver que não seja simples e natural. 
Um mundo em que tudo seja permitido, 
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, 
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós. 
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto 
o que vos interesse para viver. Tudo é possível, 
ainda quando lutemos, como devemos lutar, 
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, 
ou mais que qualquer delas uma fiel 
dedicação à honra de estar vivo. 
Um dia sabereis que mais que a humanidade 
não tem conta o número dos que pensaram assim, 
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, 
de insólito, de livre, de diferente, 
e foram sacrificados, torturados, espancados, 
e entregues hipocritamente à secular justiça, 
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.» 
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, 
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas 
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, 
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, 
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, 
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória. 
Às vezes, por serem de uma raça, outras 
por serem de uma classe, expiaram todos 
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência 
de haver cometido. Mas também aconteceu 
e acontece que não foram mortos. 
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, 
aniquilando mansamente, delicadamente, 
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus. 
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, 
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha 
há mais de um século e que por violenta e injusta 
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, 
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria 
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos. 
Apenas um episódio, um episódio breve, 
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis) 
de ferro e de suor e sangue e algum sémen 
a caminho do mundo que vos sonho. 
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém 
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-1a. 
É isto o que mais importa - essa alegria. 
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto 
não é senão essa alegria que vem 
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém 
está menos vivo ou sofre ou morre 
para que um só de vós resista um pouco mais 
à morte que é de todos e virá. 
Que tudo isto sabereis serenamente, 
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, 
e sobretudo sem desapego ou indiferença, 
ardentemente espero. Tanto sangue, 
tanta dor, tanta angústia, um dia 
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - 
não hão-de ser em vão. Confesso que 
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos 
de opressão e crueldade, hesito por momentos 
e uma amargura me submerge inconsolável. 
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, 
quem ressuscita esses milhões, quem restitui 
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? 
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes 
aquele instante que não viveram, aquele objecto 
que não fruíram, aquele gesto 
de amor, que fariam «amanhã». 
E por isso, o mesmo mundo que criemos 
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa 
que não é nossa, que nos é cedida 
para a guardarmos respeitosamente 
em memória do sangue que nos corre nas veias, 
da nossa carne que foi outra, do amor que 
outros não amaram porque lho roubaram.



Jorge de Sena


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Ofício de Amar


já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo


al berto


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

As peripécias de Eça, o cônsul


Paris 19 Setembro 1888


Meu querido Joaquim Pedro,

Escrevo-te à pressa de Paris, e do meio de cenas extraordinárias, promovidas pela gente Faria. Contei-as ao Pina em carta redigida em estilo telegráfico, e realmente não posso afrontar o nojo de tas contar de novo, com pormenores. Basta saber que quando fui ao Consulado daqui tomar posse foi a Viscondessa de Faria que me recebeu como sendo ela o cônsul. Não sei se a conheces. É uma espécie de virago, no gênero potiche, com uma voz grossa e arroucada, e o gesto tremendo. Fez-me uma pavorosa cena de berros, de protestos, de imprecações, de ganidos, de murros na mesa - que eu escutei varado, atónito, de chapéu na mão, ora recuando quando ela erguia o punho ameaçador, ora dando um passo para a porta, em movimento de fuga, quando por um instante ela voltava as costas. Em resumo, a medonha criatura declarou que só ela era o cônsul, aquele consulado era o dela, e não havia ministros, nem legações, nem autoridades que lhe fizessem entregar as chaves. Num intervalo em que ela se interrompeu esfalfada, dei um salto para o reposteiro, varei a porta, galguei escadas, precipitei-me num fiacre, e só parei em casa dos Valbom como num asilo seguro.



Mas não acaba aqui. Imagina tu a legítima indignação do Conde de Valbom. O nosso Carlos teve uma fúria que lhe fez um mal imenso ao fígado. Na legação estava tudo atónito - e vários portugueses da colónia abriam os olhos esbugalhados para o caso sem igual. Valbom decidiu - e era a única solução lógica - fazer ocupar o Consulado pelo Vice-Cônsul honorário, porque o Chanceler estava ausente, e Faria em Lisboa tramando. Com efeito o Vice-Cônsul, no dia seguinte, vai fazer a ocupação - mas, oh caso mirífico, não havia já Consulado! O escudo de armas fora arreado, portas trancadas, e através de um guichet como nos melodramas, uma porteira declarou que a Sra. Viscondessa de Faria já proibira a entrada aos amanuenses, e não a permitiria a mais ninguém. Dava-se aqui o caso talvez único nos anais da burocracia europeia de uma Repartição do Estado sequestrada por uma senhora! Só em Portugal, confessa tu querido Joaquim Pedro, sucedem estes incidentes. Nem na Romélia, nem em Tunis! Só naquele país de farsa que inventou Offenbach, e no nosso! Cubramos as faces amigo! O Valbom não tinha senão a fazer uma coisa coerente e digna - e fê-la. Pôr o caso nas mãos de Goblet, e este, decerto inteiramente épaté, nas mãos do Prefeito de Polícia.

Aí vai pois o Prefeito de Polícia, o chef da Sureté, e vários sergents de ville, a caminho do Consulado, a dar batalha à Viscondessa de Faria, e a retomar a Repartição do Estado ocupada pela cuia e pela tournure da terrível senhora. Não sabemos o que entre eles se passou. Apenas é certo que o Prefeito da Policia voltou de lá de dentro, do covil, pálido, declarando que se todas as mulheres eram assim em Portugal, Portugal era bem um país extraordinário! Mas creio que no fundo o homem vinha admirado avec cet heroisme de femelle! Em todo o caso trazia a promessa de que, no dia seguinte, hoje, entregaria tudo ao Vice-Cônsul ou antes ao Comissário de Policia. E parece que tudo com efeito, foi pouco mais ou menos entregue - ou está-o sendo. Detalhe supremo! O escudo de armas arreado na véspera do alto da porta, estava hoje pendurado por um cordel das grades de um postigo do rés-do-chão! Confessa, querido, que a Viscondessa Faria achou aqui um símbolo profundo e engenhoso! As quinas penduradas por uma guita! O velho escudo real por um fio! O emblema de séculos suspenso dum barbante e arrastado no enxurro de Paris! Que é uma mulher de génio! Andavas tu aí a procurar a fórmula definitiva da nossa situação social, sem conseguir, em vinte anos de literatura, achá-la bem exata e nítida. Pois bem! A Viscondessa de Faria vem, e num rasgo de inspiração acha essa fórmula e realiza-a - as Quinas de Portugal por um fio!


Tudo isto é fantástico! Menos fantástico porém que a própria Faria, e o Faria, e toda esta tribo! Têm-me contado aqui anedotas dum grotesco incomparável. Não tas repito porque receio que, arrastado pelo entusiasmo de artista, tu as contes - e algumas delas poderiam, se fossem publicadas ou sabidas, prejudicar o Faria! Enfim, para resumir, eu estou enojado até à saciedade - e sacudo agora de mim com prazer, este sórdido e torpe assunto.

(...)

terça-feira, 8 de setembro de 2015

em todas as ruas te encontro


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco



Mário Cesariny

sábado, 5 de setembro de 2015

Cheirar-te pela manhã


Cheirar-te pela manhã
Como se cheira uma maçã

(sem que o Goethe venha à baila)

Quando o sol se levanta
Já ninguém recusa uma boa foda…

Um beijo teu é quase um aríete
A demolir os meus alicerces.

A vizinha insiste com a vassoura
No estuque de um sonho nosso…

És o único despertador
Que eu vou tolerando!


Narciso Pinto

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Bancarrota


Harry: I'm spiritually bankrupt. I'm empty.
Cookie: What do you mean?
Harry: I'm frightened. I got no soul, you know what I mean? Let me put it this way: when I was younger it was less scary waiting for Lefty than it is waiting for Godot.

Woody Allen, Deconstructing Harry
  

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

L'Aprés Midi d'un Faune


I follow through the singing trees
Her streaming clouded hair and face
And lascivious dreaming knees
Like gleaming water from some place
Of sleeping streams, or autumn leaves
Slow shed through still, love-wearied air.
She pauses: and as one who grieves
Shakes down her blown and vagrant hair
To veil her face, but not her eyes--
A hot quick spark, each sudden glance,
Or like the wild brown bee that flies
Sweet winged, a sharp extravagance
Of kisses on my limbs and neck.
She whirls and dances through the trees
That life and sway like arms and fleck
Her with quick shadows, and the breeze
Lies on her short and circled breast.
Now hand in hand with her I go,
The green night in the silver west
Of virgin stars, pale row on row
Like ghostly hands, and ere she sleep
In silent meadows, dim and deep--
In dreams of stars and dreaming dream.

I have a nameless wish to go
To some far silent midnight noon
Where lonely streams whisper and flow
And sigh on sands blanched by the moon,
And blond limbed dancers whirling past,
The senile worn moon staring through
The sighing trees, until at last,
Their hair is powdered bright with dew.
And their sad slow limbs and brows
And petals drifting on the breeze
Shed from the fingers of the boughs;
Then suddenly on all of these,
A sound like some great deep bell stroke
Falls, and they dance, unclad and cold--
It was the earth's great heart they broke
For springs before the world grew old.


William Faulkner

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Do Livro dos Solilóquios 2


De neblina somos. Vaidade, faísca
Faúlha daquilo que se extingue, o que se apaga
Inumerável nada

Apedrejas-me com a mesma pedra que me dás
Para o descanso

Pisam-me os cascos do veado em chamas
As hastes emaranhadas no lume

Pelo tacto procuro o caminho das águas
Cego - e os olhos a quererem abrir-se
Como as chagas


Daniel Faria
(Dos Líquidos, 2000)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Da bazófia


O génio militar de Bonaparte provavelmente atingiu o seu apogeu durante a Guerra da Terceira Coligação, em 1805. O recém-coroado imperador dos franceses criou, a partir de uma invasão nunca concretizada às ilhas britânicas, o exército mais extraordinário que a Europa tinha visto até então - La Grande Armée - o qual nos 10 anos seguintes apenas haveria de ser verdadeiramente vergado pelo Inverno russo. O modus operandi desta força colossal (que chegou a contar com 800 000 homens) centrava-se na valorização da experiência, na disciplina férrea, numa inacreditável mobilidade e, claro está, na qualidade exímia da liderança.

Os maiores exemplos disso seriam os ilustres Marechais do Império. Contavam-se nesta augusta categoria alguns dos militares mais extraordinários da época, quase todos elevados à custa da valentia e do génio. Eram, de certa forma, os heróis românticos do regime e, em sentido mais lato, da própria Revolução.

Uma das minhas anecdotes* preferidas - narrada inclusivamente pelo Tolstoi no Guerra e Paz - é um bom exemplo desse romantismo. Durante a campanha de 1805, um mês depois da extraordinária Queda de Ulm e duas semanas antes da glória de Austerlitz, a vanguarda francesa deparou-se com uma companhia austríaca que defendia a única ponte sobre o Danúbio em muitas milhas. Os germânicos estavam bem entrincheirados e tinham a ponte armadilhada, pronta a ser lançada pelos ares assim que os franceses arremetessem.

Para grande surpresa do tenente austríaco, dois homens avançaram das linhas francesas e começaram calmamente a atravessar a ponte, em amena cavaqueira. Eram eles Murat, o garboso comandante da cavalaria napoleónica e Lannes, o pequeno tintureiro de Gers sobre quem o imperador haveria de dizer, remoendo o passado no exílio de Sta. Helena, que o encontrara um pigmeu e transformara-o num gigante. Assim que chegaram ao outro lado da ponte perguntaram pelo comandante e, estando este ausente, se tinha ido receber ordens relativas ao "armistício". Qual "armistício"? Pois então eles não sabiam que a guerra tinha acabado e que a companhia deveria ceder-lhes passagem o mais rapidamente possível? O pobre tenente, confrontado com as duas lendas, não achou melhor solução do que correr a procurar o superior.

Enquanto isto, mais uns quantos granadeiros e hussardos iam atravessando galhofeiramente a ponte. Ora, um capitão de artilharia austríaco, apercebendo-se disso e suspeitando que estavam a cair num engodo para crianças, começou a acender uma mecha para rebentar com as cargas. Foi então que Lannes aplicou o coup de grâce deste ardil. O marechal correu a apagar o detonador e, não satisfeito com isso, descompôs o homem por colocar o "armistício" em causa. Mais, alertou-o para o facto de, ao destruir uma ponte em tempo de paz, o seu acto seria criminoso e seguramente alvo de punição marcial. Sendo assim, a sua carreira, liberdade e provavelmente a própria vida acabariam ali!

O comandante das tropas austríacas acabava de regressar precisamente neste momento. Lannes, para além de ordenar que se desse voz de prisão ao artilheiro, exigiu que a ponte fosse cedida no imediato, para que não se ameaçasse mais a paz recém alcançada. Foi isso mesmo que o crédulo conde austríaco fez, indo com Murat para supostamente discutir termos de rendição. E assim conquistaram os franceses a passagem pelo Danúbio, sem um único tiro disparado... 



*a anectode dos ingleses refere-se a pequenos relatos mais ou menos engraçados sobre uma qualquer situação. Não me ocorreu um substituto ideal na nossa língua 

sábado, 1 de agosto de 2015

Cansaço


Não quero amar nem ser amado…
Quero ficar estúpido e cansado
a este canto, e só.

Batido pelo Vento,
sem conforto, sem pão, sem alegria.

E se eu chamar não venhas.
(Que eu não hei-de chamar-te…)

No entanto, Amor, não saias para longe.
É que eu posso, apesar de tudo quanto digo,
chamar por ti.
E era tão bom saber que me escutavas!...
E era tão bom sentir que perdoavas!...


Sebastião da Gama

sexta-feira, 12 de junho de 2015

de profundis amamos


Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria


Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros


Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes


O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso


Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso


Mário Cesariny, in Pena Capital

terça-feira, 26 de maio de 2015

Portos de abrigo




Port of Call é também o título anglo-saxónico de um dos primeiros Bergmans, o Hamnstad de 1948. Trata-se de um pequeno melodrama acerca de uma jovem operária suicida e promíscua, a sua convivência com uma mãe tirânica e a paixão por um marinheiro que dificilmente tolera o seu passado convulso.

Ninguém me tira da cabeça que o Zach Condon compôs e escreveu esta pérola depois de ter visto esse filme esquecido e levemente sentimental. 


And I

I called through the air that night
I can't see your voice in that light
I could only smile
I've been alone some time

And all in all
It's been fun

And you
You had hope for me now
I danced all around it somehow

Be fair to me
For I may drift awhile
If it were up to me
You'd know why

I
I called through the air that night
My thoughts were swarming inside
Was it infantile
That which we desire

Were it up to me
Or the warmth from your eyes 

And I
I called through the air that night
My thoughts were still buried inside

We were closer then
I'd been alone some time
Filled your glass with gin
Filled your heart with pride

And you
You had hope for me now
I danced all around it somehow

Be fair to me
I may drift awhile
If there's a plan for me
Would it make you smile

No I don't want to be there for no one
I'd stay here
No I don't want to be there for no one
That's over the sea
I don't want to follow your light
On the sea
No I don't want to be there for no one
That I can't see

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Oliveira toujours


o mais belodos planos, o mais sublime dos travellings

exalações sonolentas


It reeked of sleep. Somnopolis. It reeked of insomniac worry and disquiet, and thwarted escape. Because we are all poets or babies in the middle of the night, struggling with being.
(começando o meu primeiro Martin Amis, London Fields. É um aeroporto na madrugada, mas transponho a circunstância para qualquer uma destas noites domésticas e tangencialmente insones.)

terça-feira, 14 de abril de 2015

I wandered lonely as a cloud


I wandered lonely as a cloud
That floats on high o'er vales and hills,
When all at once I saw a crowd,
A host, of golden daffodils;
Beside the lake, beneath the trees,
Fluttering and dancing in the breeze.

Continuous as the stars that shine
And twinkle on the milky way,
They stretched in never-ending line
Along the margin of a bay:
Ten thousand saw I at a glance,
Tossing their heads in sprightly dance.

The waves beside them danced; but they
Out-did the sparkling waves in glee:
A poet could not but be gay,
In such a jocund company:
I gazed—and gazed—but little thought
What wealth the show to me had brought:

For oft, when on my couch I lie
In vacant or in pensive mood,
They flash upon that inward eye
Which is the bliss of solitude;
And then my heart with pleasure fills,
And dances with the daffodils.

William Wordsworth

(lembrei-me disto depois de rever o Viagem ao Princípio do Mundo)