segunda-feira, 15 de novembro de 2010

I'm telling you...


Fucking Boardwalk Empire...


Na essência, uma great american story vertida na TV: um dedo de Scorsese, uma época de ouro para testar a têmpera do espírito americano (que o diga F. Scott Fitzgerald), o grande Steve Buscemi a encarnar um complexíssimo anti-herói, entre o filántropo com daddy issues, o político corrupto embora cavalheiresco e o bootlegger sem escrúpulos. Eis Boardwalk Empire.

"a fraqueza imitava a força"

Algum benemérito da espécie, ao jeito de um qualquer Prometeu, deixou no espólio do youtube os 5 minutos de Vale Abraão que aqui publico de seguida.



Tia Augusta, o protótipo da papa hóstias, como lhe chamará um entediado Fernando Osório alguns anos mais tarde, acaba de falecer, e é este o momento em que Oliveira decide trocar a solar Cécile Sanz de Alba pela melancólica Leonor Silveira no papel de Ema Cardeano. Não é uma mudança inocente. Tia Augusta era a única mulher do Romesal que abominava o sexo. Como se detectasse em Ema o cheiro de um mutante, tentava levá-la amiúde a tomar os votos, a rezar, a deixar os "romances de amor"... Tão diferente das criadas, adoradoras da rainha despontante daquela colmeia, elas próprias amando e desejando, sobretudo Branca, que o fazia por gostar de homens, por vício, tão simples comer um bago de uva a caminho do armazém como foder o seminarista Nelson na varanda envidraçada, para delírio dos periquitos. Mesmo Ritinha, a lavadeira muda, só se mantinha casta, como uma pitonisa, pelo fantasma de filhos mudos e imbecis que anteviu no momento em que foi cortejada. A morte da Tia Augusta entontece Ema, "a fraqueza imitava a força", e ela, insciente de ser incapaz de amar, de não ser mulher ensinada no seu papel, do desequilíbrio que causa a sua beleza, um rosto que podia justificar a vida de um homem, lança-se nos descaminhos do mundo. Na cena seguinte ao fim deste trecho vemo-la a mexer nas caixas de chapéus da mãe, figura sombria que lhe deixou como única memória o lento gotejar do leite saído do seu seio para o ouvido de Ema, uma altura em que esta chorava com otite. De seguida um corte, e é o dia do casamento com Carlos...

sábado, 13 de novembro de 2010

J. Alfred Prufrock


Em Agosto passado - quando a ASAE encerrou este espaço dadas as condições decadentes em que são confecionadas as ideias que enformam os meus escritos (e digo "são" porque reabrimos à revelia e sem alterações de maior) - andava eu a iniciar a leitura de um tomo recomendado por
um dos meus bloggers favoritos, justamente a colectânea de poesia anglo-irlandesa do século XX editada pela Bloodaxe. Se tudo correr de acordo com o plano (entidade tão respeitada neste boteco como Jorge Nuno Pinto da Costa) irei falando e citando desse manual no futuro imediato, porque se eu era cego e agora tenho 20% de acuidade visual, em muito se deve aos srs. Eliot, Lawrence, Auden, Hughes et al.


E é do primeiro bardo desta lista que emana a matéria para este post. The Love Song of J. Alfred Prufrock é, de todos os que conheço, o grande poema sobre um homem no século xx (aonde, em boa verdade, continuo a habitar - mesmo o facebook recém criado me parece uma resposta à angústia bélica dos 1900, e à ressaca pós-hippie-pós-Sida-pós-Wham! dos nascidos em 90s). Não digo sobre O Homem do século XX, mas sim de um homem no século xx, "...one that will do / to swell a progress, start a scene or two ...". um homem que tem medo de coisas comezinhas, um homem cujas acções e palavras se perdem numa névoa de incompreensão, um homem sujeito ao escárnio, um homem pequeno na solidão do mundo, difuso, balbuciante, a quem a espera pelas torradas lança numa espiral de hesitações.

Mais ainda, que alma gigante se lembraria de rimar "go" com "Michelangelo"?



o poema dito por um senhor parecido com o Ian McEwan



S’io credesse che mia risposta fosse

A persona che mai tornasse al mondo,

Questa fiamma staria senza piu scosse.

Ma perciocche giammai di questo fondo

Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,

Senza tema d’infamia ti rispondo.


LET us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherised upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats 5
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question … 10
Oh, do not ask, “What is it?”
Let us go and make our visit.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

The yellow fog that rubs its back upon the window-panes, 15
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening,
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap, 20
And seeing that it was a soft October night,
Curled once about the house, and fell asleep.

And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes; 25
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate; 30
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.

In the room the women come and go 35
Talking of Michelangelo.

And indeed there will be time
To wonder, “Do I dare?” and, “Do I dare?”
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair— 40
[They will say: “How his hair is growing thin!”]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin—
[They will say: “But how his arms and legs are thin!”]
Do I dare 45
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.

For I have known them all already, known them all:—
Have known the evenings, mornings, afternoons, 50
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?

And I have known the eyes already, known them all— 55
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways? 60
And how should I presume?

And I have known the arms already, known them all—
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
It is perfume from a dress 65
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?
. . . . .
Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets 70
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows?…

I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.
. . . . .
And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully! 75
Smoothed by long fingers,
Asleep … tired … or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis? 80
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head [grown slightly bald] brought in upon a platter,
I am no prophet—and here’s no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker, 85
And in short, I was afraid.

And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while, 90
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: “I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all”— 95
If one, settling a pillow by her head,
Should say: “That is not what I meant at all.
That is not it, at all.”

And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while, 100
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor—
And this, and so much more?—
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen: 105
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
“That is not it at all,
That is not what I meant, at all.”
. . . . .
110
No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two,
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use, 115
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous—
Almost, at times, the Fool.

I grow old … I grow old … 120
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.

Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.

I do not think that they will sing to me. 125

I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.

We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown 130
Till human voices wake us, and we drown.

(um post dedicado a Rita Canotilho, uma leitora/amiga paciente)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Perséfone

Este blog ainda não pertence ao Hades, mas assemelha-se muito à esposa deste: metade do tempo é passado num mundo invisível. Ou, mais propriamente, num submundo de sombras.


domingo, 4 de julho de 2010

dúvida existencial


Porque é que há tão pouca gente no mundo a admirar Goldthwait Higginson Dorr, Ph.D (like Elmer? Elmer Fudd?)

sábado, 3 de julho de 2010

Salieri



Gosto particularmente no Amadeus daquele pitoresco raccord entre os dois ou três planos nos quais Salieri agradece a deus, primeiro melifluamente, enquanto compõe aquela marchazita que Mozart recria diante dos olhos da nata musical e política vienense; o segundo, logo após essa cena, de novo perante o crucifixo, mas desta feita com um ódio imenso, o "grazie signore" sai-lhe quase ameaçador. Ameaça essa que se concretiza após a estreia da Il Seraglio, quando a figura desce da parede para uma lareira acesa.

Salieri encara a falta de talento e inspiração como uma afronta de proporção universal, como se lidasse com um deus grego ou com a vingativa potestade do antigo testamento, como se fosse um Édipo ou um Job, com a vida à mercê dos caprichos e do fastio divinos. A revolta dele é curiosa, sobretudo no clímax aqui deste vídeo. Ser o padroeiro da mediocridade, ascender entre loucos e párias a esse cinzento Olimpo, é uma Paixão, um Mistério que consigo compreender.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

vai-te foder, Eli

I've always wanted to be a Tenenbaum...

I've always wanted to be a Tenenbaum... também eu, ainda mais fortemente que tu, estou do lado de fora da quarta barreira, arredado do silver screen. E desde sempre é esse consolo da irrealidade que me (co)move. O que explicará muita coisa

"A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha"
Álvaro de Campos (Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra)

Nem é de ninguém, Álvaro, pelo menos já não. E, lembrando as tais coisas emprestadas que guiamos como nossas, tal qual o Chevrolet, nesse campo o Wes Anderson é dos meus maiores credores.

Os Tenenbaums, então. O brilhantismo das crianças, a não ser quando mozartiano, é um daqueles mitos burgueses. Mas lembro-me vagamente da sensação ingénua e absurda (mais, conhecida de todos) de residir algures um potencial infinito. Um vácuo que surgia quando se acabava A História Interminável ou O Conde de Monte-Cristo, e parecia tão possível (tão passível) de ser igualado, com um fervor maquinal (mais uma vez o Campos) que punha a minha mãe de termómetro em riste. Esfumou-se tudo, e rápido.

In fact, virtually all memory of the brilliance of the young Tenenbaums had been erased by two decades of betrayal, failure, and disaster

Acontece. Só que a catarse do regresso ao abrigo do tecto materno, acastelado palco desse passado volucre, mas profícuo, dá-lhes aquele "we will grieve not" de que falava o Wordsworth:

   What though the radiance which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower;
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind
;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.
Tu vives na casa à frente deles. Se alguém pode aquilatar este contentamento espectral, és tu. E sem entradas triunfais nem livros de merda, que usam a palavra "friskalating".

Por isso vai-te foder, Eli.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

E

Se, de um simples e singular hausto do espírito, renascesse um blog?

Orfeu e Euridice, Rubens

Agora é só não olhar para trás, não vá ele descer de novo ao Hades, desta feita ad eternum.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Soprano's Corner (I)


Pérolas descobertas enquanto desvendo as agruras da vida deste capo.


"Anthony Soprano Jr. - Is it true that the chinese invented spaghetti?

Tony Soprano - Now think about it! Why would people who eat with sticks invent something that you need a fork to eat?"

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Graças à prodigiosa malta do demonoid...



... hoje não durmo só. Acompanha-me para o leito a musa. Sonhos felizes para vós, infelizes.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Emancipação


"Ema pediu a Lumiares informações.
- É um parvo e bebe muito - disse Pedro (...) - Como é? Andas a dormir com ele?
- Não, estás doido. Não é isso.
Mas conferssou que Fernando Osório lhe soltara as alças do vestido, uma vez, na piscina, à noite. Não estava ninguém, e a água negra brilhava com pequenos sulcos como se fosse agitada desde o fundo.
- As alças do vestido? Não deixes fazer a nenhum homem o que podes fazer sozinha. Doutro modo, nunca te vais emancipar na vida. (...)" Vale Abraão, Agustina Bessa-Luís

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010



Para uma cabeça desinspirada, como cura de um desejo amargo de ver o mar. Não, o resto é-me indiferente hoje: a mulher "oblíqua" que, lançada ou caída no oceano, tem a oportunidade de emergir para uma vida sã e casta (bollocks...). Obviamente que basta um subconsciente insubmisso ou um wanderer of the sea para foder o esquema, o que não deve surpreender ninguém. Como o dizia o narrador no início do They Live By Night, se a memória ainda tem crédito, "these two, they never were properly introduced to the world we live in". Quem falha essa ligação primordial não tem remédio senão meter-se pela borrasca numa qualquer casca de noz e esperar que uma vaga, iremediavelmente, o lance borda fora. Like a complete unknown, like a rolling stone...


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Da naúsea do "romantismo"

Desafio o menos atento dos frequentadores desta choldra (menos a minha tia-avô Guilhermina, que terá mais do que fazer) a reflectir sobre a perversão do conceito de romantismo às mãos da cultura pop. Não passa um dia sem que ouçamos uma qualquer tânia ribas de oliveira (pet hate of mine, daí ter perdido o direito ao substantivo próprio) a declarar-se uma “romântica” de primeira apanha; ou uma semana sem que surja um espaventoso cartaz/spot do tony carreira a incensá-lo como cantor “romântico”; e seguramente não passará um ano sem que os escaparates sejam poluídos por mais um “romântico” volume parido - ou melhor - fabricado pelos empregados do mês da Kleenex, vulgo nicholas sparks, sveva não-sei-quê ou guidinha rebelo pinto. Puta que os pariu a todos, é a minha reacção a um nível macroscópico (entrarei em detalhe mais à frente).

Não me vou armar em pedagogo, falta-me a disposição e um espírito de dominação; mas todos sabemos que o romantismo (sem aspas) é a praia do Byron, do Keats, do Garrett… E não é certamente preciso ser um leitor compulsivo para se chegar a esta definição do Baudelaire (aliás, basta consultar a boa, velha e aparentemente em decadência Wikipédia): “Romanticism is precisely situated neither in choice of subject nor exact truth, but in the way of feeling.” Ora o problema desta gente que eu denunciei e dos seus correligionários é justamente a “ciência”, a fabricação objectiva que conduzem. Tem tudo a ver com choice of subject. O que eles entendem por “romantismo” é uma paleta de diferentes estratégias, tidas como apropriadas para um jogo de sedução padrão, “normal” – jantares com velas, massagens com merdas aromáticas compradas nos chineses, cançonetas da mafalda veiga – utilizadas para enfiar alguém numa cama, ou numa “relação para a vida”, que é no fundo o mesmo, mas com um empréstimo bancário a 30 anos. Nenhum destes carrapatos passou algum dia pelas aflições do romântico. A melancolia funda que envelhece, o gosto quase obsceno pela sua própria angústia. Sobretudo o delicado processo solitário da efabulação, única maneira de saborearem uma relação. Tudo isto arraçado com um dramatismo bufo, por mais paradoxal que pareça.

Surgiu-me toda esta cantilena não só pela indignação, mas sobretudo pelas telas do Turner, do Constable e do Caspar David Friedrich, descobertas recentes, muitas delas.


Lembro-me do meu professor de Filosofia nos mostrar este Homem e Mulher Contemplando a Lua, do Friedrich. Estava na minha fase punk, disse cobras e lagartos daquela ambiência supostamente densa, que me parecia kitsch e forçada. Enfim, era young and foolish. Tal e qual como sou agora. Mas entretanto caíram-me no goto, por empatia sobretudo, que eu de pintura não percebo um corno. Valorizo é o cansaço destes senhores com os seus semelhantes, a recriação destes cenários com uma luz quase sobrenatural, demente mesmo; e o bucolismo desmesurado, a redução das figuras - figurinos? – humanas a uma escala irrisória (no caso do Constable, por exemplo). Coisa séria, portanto, que não merece, nem pode, ser confundida ou relacionada com produção televisiva nacional e todas as excrescências mencionadas acima. Digo eu.

Weimouth Bay, do Constable.

Seascape Study With Rain Cloud, também do Constable - puta que pariu, certo?

O Temeraire a ir para a sucata, do Turner

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Congrats


À Menina Limão, que cumpre três anos à frente do seu blog - e já que estou a usar uma fórmula retirada dos mais inspirados outdoors autárquicos, digo ainda mais: Obra Feita. Que se sigam muitos mais. By the way, gosto mais de limões amarelos (nem que seja por ser a cor do meu rico curso).

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Tela em construção


E por falar em Machado, o Xico incinerou o antigo C-F-G-Am-F e mudou-se para aqui. Boas pinturas, mate (e desculpa os trocadilhos óbvios)!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Dos Casmurros


Talvez desconfie também eu demasiado das acções e movimentos da prole de Pandora, mas não me resta qualquer dúvida, findo o Dom Casmurro do Machado de Assis, que Capitu encornou Bentinho à força toda. É a sina das mulheres com olhos "de cigana oblíqua e dissimulada". Não digo isto por misoginia de nenhum tipo, nem com o selo de uma qualquer moralidade de pacotilha: a dissimulação é qualidade da mulher, como referiu o Manoel de Oliveira. Da mulher feminina, coisa que parece tão redundante como o conceito de "pessoa humana" que tanto revoltava as duas aspirantes a enfermeiras que discutiam no Metro hoje à tarde, mas que traduz um estatuto igualmente "resoluto", primordial, longe da construção publicitária ou novelizada da donna. Vós que me ledes conheceis a minha inclinação para o misticismo um tanto ébrio, por isso tratem de digerir este palavreado.

É óbvio que o contraponto identitário masculino no romance, o desejo canino de dominação, a que podemos chamar o ciúme de Bento, pode ser uma justificação perfeitamente plausível, embora o meu ponto de vista (nada neutral) me afaste instintivamente. Não que dê muita importância a todo esse imbróglio. Fascina-me muito mais o desejo nada camuflado do velho Bento/Dom Casmurro em saborear (ao longo de grande parte da história) as memórias de um tempo virginal. Do delírio que foi aperceber-se de que desejava Capitu; da vertigem do beijo roubado à frente do espelhinho; do pregão da cocada, até. A tolice de chafurdar na memória, que vai ao ponto de reconstruir com detalhe a velha casa de sua mãe, para unir as duas pontas da vida. Tolice consciente, com um travo de masoquismo, de auto-depreciação e a certeza da sua inutilidade. Daí que a putativa traição é contada quase em passo de corrida. "The day you sign a client is the day you start losing him", ouvi hoje por 2 vezes no 10º episódio da 1ª temporada de Mad Men - e sim, o capitalismo tem tudo a ver com as desventuras sentimentais (parece-me a expressão menos cheesy e mais científica que "paixões de amor" do discurso de Pascal). Deixo o livro a considerar que, mais do que um orgulho ferido, é o receio dessa toada camuflada no quotidiano, que procura desesperadamente conservar um ideal e uma aura perdidas ad inicium o que leva ao desenlace. Enfim, contrariem-me por favor.

Eu sou o pior leitor do mundo, dobro sempre a história à minha imagem. Deve de ser o tal ego de amanuense.



o senhor Lekman disserta sobre o vício da memória



isto é um excerto da série da Globo que adapta o romance. A espaços parece inclinar-se para os domínios daquele palhaço que realizou a Amélia das Polainas, mas tem Beirut na banda sonora...